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Primeiras bancárias do país relatam suas trajetórias de luta por direitos

Writer: sintrafapsintrafap

Contraf-CUT entrevistou bancárias cujas lutas foram essenciais para garantia de direitos; confira

No mês dedicado à celebração da luta das mulheres, a Confederação Nacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) conversou com bancárias emblemáticas sobre suas trajetórias desafiadoras, mas também de conquistas trabalhistas significativas para a categoria.  

As experiências contadas têm uma conclusão unânime. Direitos trabalhistas que hoje são considerados ‘naturais’ foram, na verdade, resultado de muita luta. “Eu entrei no banco em 1973, num dos primeiros concursos que admitiram mulheres. Antes o banco não tinha mulheres, a não ser em cargos do BB [Banco do Brasil] terceirizados, como telefonistas, coisas bem esporádicas né (...) O pessoal que está hoje nos bancos, em geral, pensam que esses direitos sempre existiram e não é verdade. Toda a luta que fizemos sobre auxílio creche, educação, alimentação, transporte, nada disso existia e alguns. PLR (participação nos lucros/resultados) eu nunca cheguei a receber”, contou Fernanda Carisio, funcionária aposentada do BB e primeira mulher a presidir o Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e a Confederação Nacional dos Bancários (CNB-CUT), que mais tarde veio a se tornar a Contraf-CUT. 

Na entrevista concedida a Samanta Almeida Pereira, dirigente sindical e Secretária da Igualdade e Diversidade no Sindicato do Bancários e Financiários de Curitiba, Carisio chamou atenção especial à escassez da participação feminina nas funções bancárias nas décadas de 70 e 80 e diante disso como o combate ao machismo descarado era cotidiano. 

“Não tinham mulheres no banco e esse fato colocava uma série de dinâmicas especiais, porque existiam pessoas que achavam bem legal e bonitinho ter uma mulher no banco, como também tinham pessoas que não sabiam o que fazer com aquilo, era uma excrescência. Aconteciam coisas bem estranhas, tinha coisas, assim, bem esquisitas. Quando fui ser chefe da bateria de caixas, eu falei com um dos caixas para fazer alguma tarefa e ele falou que não iria fazer porque não recebia ordem de mulher e preferiu perder a comissão, e isso já era na década de 80”, relembrou.

Carisio, que começou atuando como professora enquanto cursava jornalismo, também comentou sobre outro ponto crucial e de referência na luta das mulheres bancárias: a atuação no combate à proteção de vítimas de assédio moral e sexual. 

“Não tinha realmente nenhum tipo de norma ou de legislação que protegesse as mulheres. Toda essa discussão que se faz hoje contra o assédio, de proteção, nada disso, nem se citava dentro do banco (...) Foi um período muito ruim, mas ao mesmo tempo de muita luta. Tinha a agitação, muita disputa e muita luta, que geraram uma mudança na relação de trabalho (...) Precisamos rememorar e contar para que não fique aquela história de que essas coisas são um benefício do empregador, do patrão, porque na verdade custou muita disputa”, ressaltou. 

Relacionada à articulação sindical na busca por direitos, Carisio frisou que a “trajetória de formação e participação política ajuda na luta” e que trabalhos como a da  “Contraf-CUT tem ajudado muito nessa formação, que é essencial para que a gente possa saber lidar com essa realidade”, disse. 

À nova geração de bancárias, Carisio deixou um recado: “Precisamos de muita disposição porque ainda é uma luta muito difícil, ainda vemos dentro dos dos bancos muito do machismo, desses homens que não atendem ordem de mulher bancária. Temos que saber combater. Percebo muitas mulheres que ainda se submetem a essas situações porque acham que é assim e não, não é assim e não pode ser assim! E precisamos saber que lugar de mulher é em qualquer lugar onde ela queira, achar e puder estar. Vamos em  frente, porque essa luta é difícil, mas é nossa”, completou. 


A luta não pode parar!

A secretária da Juventude da Contraf-CUT, Bianca Garbelini, também conversou com Ana Elizabete Mota, a primeira concursada a tomar posse na Agência Centro do BB, em Natal, no Rio Grande do Norte, na década de 70. Durante a entrevista, a bancária relatou como a transição geracional da carreira ajudou na sua formação como mulher. 

“Eu considero que a minha experiência no Banco do Brasil, uma experiência imponderável na formação da minha vida, da minha carreira, da minha consciência política, porque eu ingressei na ditadura, vivi o assédio, vivi a discriminação vivi o moralismo - sem saber que aquilo era moralismo, assédio ou discriminação, achando que era natural. (...) A minha transição geracional foi um processo muito rico na formação da ideia de ser mulher, da ideia de ser mulher trabalhadora e principalmente de saber que sozinha, sem apoio de organização, a gente não teria conquistado tanto”, declarou Mota, atualmente Doutora em Assistência Social e que também foi a primeira mulher eleita da Previ, a caixa de previdência dos Funcionários do BB.

Mota fez também um apelo às trabalhadoras da geração atual. “Hoje nós corremos outro risco que é de regressão, mas as conquistas foram muito importantes. As mulheres, vocês e tantas outras que estão na linha de frente, que estão trabalhando, vivendo maternidade, tripla jornada [de trabalho], todas  conquistas elas não são desvinculadas daquilo que a gente um dia conquistou. E o movimento de mulheres tem uma força absolutamente fantástica”.Vale lembrar que nos últimos 20 anos articulação dos movimentos sindicais teve outras séries de importantes vitórias às mulheres na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) e que hoje, por exemplo, são referência para outras categorias. Entre as principais conquistas das bancárias estão:

• 2000: inclusão do tema igualdade de oportunidade nas mesas de negociação

• 2009: licença-maternidade de 180 dias e extensão de direitos aos casais homoafetivos

• 2010: inclusão da cláusula que criou o programa de combate ao assédio moral

• 2016: licença-paternidade de 20 dias

• 2020: programa de prevenção à violência doméstica e familiar contra bancárias, incluindo a criação de canais de acolhimento, orientação e auxílio às mulheres em situação de violência doméstica e familiar

• 2022: cláusula que criou o programa de combate ao assédio sexual

• 2024: conquista cláusula que garante mais de 3 mil bolsas de estudo para mulheres na TI; e criação da “Negociação Nacional sobre Assédio Moral, Sexual e Outras Formas de Violência no Trabalho Bancário” e que resultou em novas cláusulas na CCT para enfrentar os temas.


"É de grande valor que o movimento sindical dê visibilidade para as bancárias que lá atrás abriram caminho e hoje podem falar de suas vivências como ferramenta de luta. As primeiras trabalhadoras do ramo financeiro foram negligenciadas por muito tempo e passaram por situações que hoje em dia são consideradas criminosas e esse processo de garantia de direitos só foi possível pela construção feita nos últimos anos, com muita luta para ter uma convenção coletiva de trabalho que realmente nos respeitasse e protegesse, e para que esse processo seja evolutivo precisamos permanecer unidas e vigilantes", enfatiza Samilla Moraes, Diretora de Mulheres do Sintraf-AP.


Fonte: Contraf-CUT.

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